Classes de Nice: como escolher a classe certa para registrar sua marca

Classes de Nice: como escolher a classe certa para registrar sua marca

A pergunta “em qual classe registro minha marca?” parece simples e raramente é. O sistema de Nice é amplo, internacional e exige tradução entre a linguagem do negócio (“eu vendo cosméticos”) e a linguagem do INPI (classe 3, produtos cosméticos e de higiene). Errar na escolha é caro: marca registrada na classe errada deixa a atividade real desprotegida, e correção exige novo pedido, com nova taxa, novo prazo, novo exame.

Este artigo explica como funciona a Classificação de Nice, o princípio da especialidade e a lógica para escolher a classe certa.

O que é a Classificação Internacional de Nice

A Classificação de Nice é o sistema padrão internacional para organizar produtos e serviços no registro de marcas. Foi instituída pelo Acordo de Nice (1957), administrada pela OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) e adotada por mais de 80 países, incluindo o Brasil.

A versão atual é a 11ª edição (2024), com revisões periódicas. O INPI publica a lista oficial em português no seu site.

Características principais:

  • 45 classes: 34 de produtos + 11 de serviços.
  • Cada classe agrupa itens correlatos (alimentos, vestuário, serviços jurídicos etc).
  • Dentro de cada classe há subdivisões detalhadas: a “Lista Alfabética” da OMPI traz milhares de itens.

Princípio da especialidade

A proteção da marca registrada é limitada à classe registrada (art. 124, XIX da LPI). É o chamado princípio da especialidade.

Consequência prática: a mesma marca pode coexistir em classes diferentes, com titulares distintos, desde que não haja risco de confusão.

Exemplo clássico: a marca “Veja” existe como revista (classe 16, produtos editoriais), como produto de limpeza (classe 3) e como remédio (classe 5), sem que uma impeça a outra. São negócios diferentes, sem risco de cliente confundir o jornal com o desinfetante.

Exceções ao princípio da especialidade:

  • Marca de alto renome (art. 125 da LPI): recebe proteção em todas as classes, independentemente da atividade. Coca-Cola, Bombril e Nike são exemplos.
  • Marca notoriamente conhecida no ramo (art. 126): proteção ampliada mesmo sem registro local.

Para a marca comum, a regra é: cobrir a classe da atividade real do negócio.

A estrutura das 45 classes

A divisão geral:

Produtos: classes 1 a 34

FaixaTipo
1-5Químicos, tintas, lubrificantes, cosméticos, farmacêuticos
6-10Metais, máquinas, ferramentas, aparelhos científicos e médicos
11-17Iluminação, veículos, armas, joias, instrumentos musicais, papel, borracha
18-21Couro, móveis, utensílios
22-27Cordas, têxteis, vestuário, calçados, rendas, tapetes
28-34Brinquedos, alimentos, agrícolas, bebidas, tabaco

Serviços: classes 35 a 45

ClasseAtividade
35Publicidade, gestão de negócios, comércio (inclui e-commerce)
36Serviços financeiros, seguros, imobiliários
37Construção, reparos, instalação
38Telecomunicações
39Transporte, armazenamento, viagens
40Tratamento de materiais, costura, impressão
41Educação, treinamento, entretenimento, esporte, cultura
42Tecnologia, software, pesquisa científica
43Alimentação (restaurantes, bares), hospedagem
44Serviços médicos, veterinários, beleza, agricultura
45Jurídicos, segurança, serviços pessoais

A lista completa está disponível na Resolução INPI/PR nº 248/2019 e na lista oficial da OMPI.

Como mapear a atividade do seu negócio

Quatro perguntas práticas:

1. O que eu vendo ou ofereço?

Listar todos os produtos e serviços. Não só o principal, todo o portfólio atual e o previsto para os próximos anos.

2. Eu fabrico ou só revendo?

Quem fabrica registra na classe do produto (ex: classe 25 para roupas). Quem só revende registra na classe 35 (comércio).

Empresa que faz os dois (fabrica e vende online): registra em ambas, classe 25 + classe 35.

3. Quem é o cliente final e em qual canal?

Loja física, e-commerce, marketplace, assinatura mensal, B2B. Cada canal pode ativar uma classe diferente:

  • Loja física vendendo roupa: classe 25 (produto).
  • E-commerce vendendo a mesma roupa: classe 25 + classe 35.
  • Software de gestão para empresas: classe 42.
  • Aulas online: classe 41.
  • Consultoria para outras empresas: classe 35 ou classe especializada.

4. Qual a expansão prevista nos próximos 3 anos?

Pensar adiante. Registrar agora classes que serão usadas em 2 anos custa menos que abrir novo pedido depois.

Casos práticos comuns

Restaurante físico com delivery e venda de produtos

  • Classe 43: serviços de restaurante e bar.
  • Classe 39: entrega/delivery (em alguns casos).
  • Classe 30 ou 29: se vender produtos de marca própria (geleias, molhos etc).

Clínica de estética com produtos próprios

  • Classe 44: serviços de tratamento estético.
  • Classe 3: cosméticos e produtos de beleza.
  • Classe 35: comércio dos produtos.

Software-as-a-service (SaaS)

  • Classe 42: software fornecido como serviço, plataforma online.
  • Classe 9: se houver versão downloadable ou aplicativo móvel.
  • Classe 35: se incluir gestão de dados para terceiros.

MEI prestador de serviços (ex: designer freelancer)

  • Classe 42: design gráfico, design industrial.
  • Classe 41: se também der cursos.

Influencer / criador de conteúdo

  • Classe 41: entretenimento, produção de conteúdo audiovisual.
  • Classe 35: publicidade, propaganda.
  • Classe 25: se lançar linha de roupas com a marca.

Quando registrar em múltiplas classes

A decisão sobre número de classes envolve custo x benefício. Cada classe custa R$ 880 sem desconto (R$ 440 com desconto). Multi-classe vale quando:

  • O negócio atua em mais de uma frente (produto + serviço, fabricação + comércio).
  • plano de expansão com novas categorias em curto prazo.
  • A marca tem valor estratégico alto e merece blindagem ampla.
  • Concorrente pode tentar registrar a marca em classe vizinha para diluir a proteção.

Quando dispensar multi-classe:

  • Negócio pequeno, com atividade muito específica.
  • Orçamento limitado: registra a classe principal primeiro, expande depois.
  • Atividade que não tem extensão natural para outras classes.

Os 4 erros mais comuns na escolha de classe

  1. Registrar só uma classe sem cobrir comércio. Marca de produto sem registro em classe 35 fica vulnerável a concorrente que registra “loja com o mesmo nome”.
  2. Confundir classe de produto com classe de serviço. Quem fabrica e quem vende registram em classes diferentes; misturar gera proteção incompleta.
  3. Escolher classe por nome aproximado, sem ler subclasses. A classe 25 cobre roupas, mas calçados estão em classe 25 também e bolsas vão para classe 18. Detalhe importa.
  4. Não considerar atividades correlatas no futuro. Registrar só hoje pode obrigar novo pedido amanhã, sem prioridade.

Especificação pré-aprovada x livre: impacto na classe

Dentro de cada classe, o titular escolhe a especificação (descrição dos produtos/serviços):

  • Pré-aprovada (cód. 389): lista pronta do INPI, R$ 880 por classe.
  • Livre preenchimento (cód. 394): redação própria, R$ 1.720 por classe (custa o dobro).

Para atividades comuns, a pré-aprovada cobre. Para atividades muito específicas, vale a livre. Detalhe: especificação livre tem mais exigências no exame substantivo.

Perguntas frequentes

Posso registrar a marca em todas as 45 classes?

Tecnicamente sim, mas o INPI pode pedir comprovação de uso real ou pretensão de uso em cada classe. Registro abrangente sem atividade correspondente está sujeito a caducidade após 5 anos.

Se eu registrar na classe errada, posso transferir para a certa?

Não. Cada classe tem pedido próprio. O caminho é abrir novo pedido na classe correta (novo prazo, nova taxa) e, se desejar, abandonar o anterior.

Como descobrir em qual classe minha atividade está?

Consulta gratuita na busca do INPI, sistema permite localizar a classe da atividade pela palavra-chave. Para casos duvidosos, escritório de PI faz o enquadramento técnico.

Marca em classe estrangeira pode bloquear meu registro no Brasil?

Marca registrada em outro país com alto renome pode invocar proteção no Brasil (art. 126 da LPI). Marca não notória, registrada apenas no exterior, em regra não bloqueia.

Quantas classes a maioria das marcas registra?

Pequenos negócios registram 1 a 2 classes. Médias empresas, 3 a 5. Marcas com escala nacional ou internacional, 8 ou mais. O número certo depende da atividade, não há regra fixa.

Quando procurar uma advogada de PI

A escolha de classes é decisão estratégica que combina:

  1. Mapeamento detalhado da atividade atual e expansão prevista.
  2. Análise de risco em classes vizinhas (concorrente registrando ao lado).
  3. Otimização de custo (pré-aprovada x livre, classes essenciais x classes opcionais).
  4. Documentação para o INPI (declaração de uso, alinhamento com CNAE do CNPJ).

Para entender todo o sistema de marcas, veja o guia completo de registro de marca no Brasil 2026.

Fontes oficiais


Conteúdo informativo, sem caráter de consultoria jurídica para caso concreto. Cada situação exige análise individualizada por profissional habilitado em Propriedade Intelectual.

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